Conceitos de bioenergia

 INTRODUÇÃO

    Em psicoterapia reichiana e neo-reichiana fala-se muito sobre energia. Tão familiarizados  estamos que parece até estranho falar sobre isso, dá a impressão de que todo mundo sabe do que se trata.

    Entretanto, uma olhada mais atenta nos mostrará que o problema é bastante complexo, e que existem questões importantes que não  estão esclarecidas. De um lado, a ciência estabelecida nega validade a este conceito. De outro, entre os que acreditam não há um consenso, com as várias opiniões se contradizendo umas às outras.

    A verdade é que não sabemos exatamente o que seja essa tal de bioenergia, apesar de muita gente achar que sabe. Sobre estes últimos poderíamos dizer, parafraseando o que Freud afirma sobre o conteúdo latente dos sonhos (16),  que eles na verdade não sabem, mas como não sabem que não sabem, acham que sabem.

    Se analisarmos as concepções sobre bioenergia oriundas das diversas linhas psicoterápicas,  da Homeopatia, da Acupuntura, das inúmeras terapias alternativas, e das religiões orientais e ocidentais, forçosamente  chegaremos à conclusão de que a maioria delas certamente está incorreta, simplesmente pelo fato de não poderem estar todas certas ao mesmo tempo, dadas as diferenças existentes entre elas.

Este  artigo não pretende esgotar o assunto, mas apenas colocar alguns pontos de vista, para possibilitar a discussão e facilitar  um avanço posterior. Toma-se como ponto de partida o conceito reichiano, para depois investigar suas conexões com outros campos.

* Escrito em 1990 como monografia de conclusão do Curso de Formação do Ágora-Centro de Estudos Neo-Reichianos.

  Apresentado em Mesa Redonda sobre Bioenergia no III Encontro Reich  no Sedes, 1990.

  Publicado em versão resumida nos Anais do referido Encontro, e na  Revista de Homeopatia, 57: 3-19, 1992.  

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    Sempre que se falar em psicoterapias reichianas de um modo geral, está-se englobando todas as linhas reichianas e neo-reichianas, a menos que se especifique o contrário.

    2.CONCEITOS DE ENERGIA REICHIANOS E NEO-REICHIANOS

    2.1. A ORIGEM PSICANALÍTICA

    O conceito de bioenergia teve origem na teoria psicanalítica. Freud já em seus primeiros escritos afirmava que “nas funções mentais, deve-se distinguir algo – uma carga de afeto ou soma de excitação – que possui todas as características de uma quantidade (embora não tenhamos meios de medi-la) passível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se espalha sobre os traços mnêmicos das representações como uma carga elétrica espalhada pela superfície de um corpo” (17, p. 65).

    Inicialmente Freud tentou descrever esse fenômeno em bases neurológicas, no seu “Projeto para uma Psicologia Científica” (18). Entretanto, segundo Strachey, quando ele, alguns anos depois, no sétimo capítulo de “A Interpretação de Sonhos”, “dedicou-se ao problema teórico mais uma vez – embora, certamente, jamais abandonasse a crença de que, em última análise, teria que ser estabelecida uma base física para a psicologia – o fundamento neurofisiológico foi ostensivamente abandonado” e “os sistemas de neurônios foram substituídos por sistemas ou entidades psíquicos; uma ‘catexia’ hipotética de energia psíquica tomou o lugar da ‘quantidade física’“ (59, p. xxiv).

    O desenvolvimento do ponto de vista econômico na psicanálise, e dos conceitos de catexia, libido e energia psíquica, não desemboca, segundo seu autor, numa ruptura com o conhecimento biológico. Segundo Ricoeur, “Freud vê e verá na ciência a única disciplina do conhecimento, a regra exclusiva de toda probidade intelectual” (54, p. 70), sendo que até o fim da vida continuaria expressando a necessidade de uma articulação da Psicanálise com a Biologia (19).  Articulação esta que ainda hoje é insatisfatória (14, 54), dando assim margem a desdobramentos teóricos mais distanciados da ciência, entre eles as concepções de Reich e seus seguidores, como se verá mais adiante.

    2.2. CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

    Existem muitas semelhanças entre os conceitos de energia utilizados por Reich e pelas diversas linhas psicoterápicas neo-reichianas. Concorda-se em que há uma bioenergia, que esta interfere na fisiologia e na fisiopatologia do organismo humano, que existe um campo energético (aura) que vai além dos limites da pele, que essa energia pode ser bloqueada pela hipertonia muscular (7, 35, 36, 48, 50).

    Nas conversas e discussões entre psicoterapeutas parece ser dado como implícito que os autores concordam sobre o que seja bioenergia. Na verdade, entretanto, existem diferenças importantes tanto no aspecto teórico-conceitual como no aspecto técnico, de como manejar terapeuticamente essa energia.

    Chama a atenção em primeiro lugar que os chamados neo-reichianos, sem exceção, têm como um dos principais divisores de águas com as propostas reichianas clássicas, exatamente uma divergência não explicitada quanto ao conceito de bioenergia. Por divergência não explicitada quero dizer que nenhum dos autores neo-reichianos critica abertamente, ou afirma discordar, ou diz que são bobagens algumas das afirmações fundamentais de Reich sobre a bioenergia. Entretanto, são muitos os pontos de afastamento.

    A começar pelo nome: os neo-reichianos não utilizam a denominação de energia orgone.  Bioenergia, força vital ou simplesmente energia são os nomes mais comuns. E isto não é um simples detalhe, é quase que um resumo da diferença.  Pois podemos perceber que toda a produção de Reich posterior ao “Análise do Caráter” (que é quando surge e se desenvolve o conceito de energia orgone), parece ter sido desprezada, ou “esquecida” pelos neo-reichianos. O Reich que é citado, homenageado, a quem se debitam influências, é aquele que existiu até meados da década de 1931. As pesquisas com bions; o acumulador de energia orgone; a câmara de energia orgone; as concepções astrofísicas e meteorológicas baseadas na energia orgone; o tratamento orgonoterápico do câncer; o medidor de energia orgone; o conceito de energia DOR; os experimentos sobre energia orgone com radiografias, contadores Geiger, tubos fluorescentes; tudo isso está ausente da teoria e da técnica neo-reichianas.

    Na Psicologia Biodinâmica encontram-se referências aos conceitos de Reich: “eu concordo totalmente com os últimos trabalhos de Reich sobre orgonomia e sua pesquisa de ‘raios cósmicos’ “ (9, p. 91); “e logo comecei a incluir as teorias de Reich de fluxos vegetativos e energia orgônica” (9, p. 90); fala-se de um “suprimento de vida dado a todas as criaturas por uma energia cósmica (cf. ‘mar cósmico’ de Reich). Esta energia cósmica dá pulsação a todas as células vivas e está presente nas vísceras e em outros tecidos vivos” (9, p. 91). Apesar da aparente concordância com as idéias de Reich, o que podemos perceber a partir do exame atento das concepções de energia da Psicologia Biodinâmica é que há uma grande diferença entre estas e a teoria da Orgonomia conforme formulada por Reich, como veremos a seguir.

    É curioso notar que os chamados neo-reichianos parecem fazer com Reich o que este fez com Freud: fundamentam-se nos trabalhos iniciais e descartam a produção posterior, retomando caminhos abandonados pelo autor que os influenciara.

    Além disso, encontram-se divergências quanto a outros aspectos. Examinaremos aqui basicamente as diferenças conceituais entre as proposições de Reich, e as de dois dos principais ramos neo-reichianos: a Bioenergética de A. Lowen, e a Psicologia Biodinâmica de Gerda Boyesen.

Tipos de energia

    Reich – “existe uma energia observável, demonstrável, que tudo permeia”, e que é chamada “energia orgone cósmica” (52, p. 139). “A energia orgone … está presente em toda parte” (52, p. 142). “Precisamos compreender o organismo vivo como uma porção organizada do oceano orgone cósmico” (52, p. 143).  “A energia orgônica cósmica funciona no organismo vivo como energia biológica específica. Como tal, rege a totalidade do organismo e se expressa por igual nas emoções e nos movimentos biofísicos” (48, p.362). Propõe-se a hipótese de que “energia orgone é energia cósmica primordial per se; que os três grandes domínios funcionais, da energia mecânica, da massa inerte, e da matéria viva, derivam desta energia cósmica primordial através de complicados processos de diferenciação” (52, p. 99).

    Bioenergética – “Existe uma única força ou energia no organismo, que é idêntica ao conceito psicanalítico de libido” (35, p.88).  “Eros é a força vital e só existe uma única força deste tipo. A esse respeito nossas idéias são monísticas” (35, p. 92). “Uma energia básica motiva todas as ações. Quando flui através da musculatura e a carrega, especialmente os músculos voluntários, produz movimentos espaciais que podemos equacionar com agressão (mover-se para fora). Quando carrega estruturas delicadas como o sangue e a pele, produz sensações eróticas, ternas ou amorosas” (35, p.93). Localiza a energia agressiva como fluindo principalmente na parte posterior do corpo, e a energia terna na parte anterior.     

    Psicologia Biodinâmica – Existem dois tipos de energia: uma “energia ascendente, proveniente das profundezas do corpo”, e uma “energia descendente, proveniente do cosmos” (7, p.64). Além disso, “não haveria apenas uma ascendente e uma energia descendente, mas também uma energia que iria para o exterior e uma energia que iria para o interior” (7, p. 84).

    Na prática, sempre há uma diferenciação em dois tipos de energia. Na Psicologia Biodinâmica se fala na energia ascendente emocional e na energia descendente cósmica harmonizante.  Reich e Lowen falam de uma energia única (diferente para cada um: em Lowen trata-se de uma energia biológica que se manifesta através da matéria; para Reich, a energia orgone é a própria matéria prima do Universo), mas que acaba se diferenciando em orgone (energia positiva) e DOR (energia negativa) para Reich, e em energia agressiva (costas/musculatura) e energia terna (frente/pele) para Lowen.  Os conceitos não são superponíveis, e nem compatíveis ou complementares.

Origem corporal da energia

    Reich – “Na região abdominal – a chamada sede das emoções – encontramos os geradores da energia biofísica. São os grandes centros do sistema nervoso autônomo, essencialmente o plexo solar, o plexo hipogástrico e o plexo lombossacro” (50, p.247).

    Bioenergética – Costas: “região que circunda a inserção da ‘crura’ do diafragma” (35, p. 87). Frente: “Sua fonte parece ser o coração” (35, p. 86).

    Psicologia Biodinâmica – “a energia instintual, emocional, sobe desde as paredes intestinais” (7, p. 118); há um “gerador de bioenergia nos órgãos intestinais” (9, p. 92). (7, 9). Além desta, como já citado, uma energia oriunda do cosmos que “parecia originar-se da parte mais alta da cabeça” (7, p. 63), sendo “originária de fontes metafísicas” (9, p. 90).

O que bloqueia a energia

    Reich – “No organismo encouraçado, a energia orgônica está ligada aos espasmos musculares crônicos” (48, p. 377).  “Os encouraçamentos são segmentados, em forma de anéis perpendiculares à coluna vertebral” (48, p. 375).

    Bioenergética – hipertonia muscular, sem utilização do conceito de anéis musculares (35, 36).

    Psicologia Biodinâmica – hipertonia e hipotonia da musculatura, também não trabalha com o conceito de anéis musculares.  Fala do bloqueio através da couraça tissular e couraça visceral

Direção da energia e enfoque terapêutico

    Reich – a bioenergia flui da pelve para a cabeça, ênfase terapêutica nesse aspecto, apesar de citar movimento também do centro para a periferia do organismo (48, 50).

    Bioenergética – das origens citadas (centro do corpo) para a periferia, especialmente para os reservatórios nas extremidades (cabeça e pélvis); ênfase terapêutica na liberação do movimento do centro para a periferia (35, 36).

    Psicologia Biodinâmica – uma energia que sobe e outra que desce, ao longo do eixo longitudinal do corpo; ênfase terapêutica no conseguir fazer fluir a energia ascendente e transformá-la em energia descendente harmonizante (7).

  1.      BIOENERGIA E CIÊNCIA

    3.1. A QUESTÃO DO VITALISMO

    Como não há consenso entre as diversas correntes reichianas, vejamos se a ciência pode nos ajudar a esclarecer a questão. A meu ver, a relação dos conceitos de bioenergia com a ciência deve ser entendida no âmbito do debate sobre o vitalismo.

    O vitalismo “é a teoria científico-filosófica sobre a constituição interna dos viventes orgânicos, que, em primeiro lugar, vê uma diferença essencial entre eles e os seres inorgânicos, diferença essa que não permite reduzir uns aos outros, e, em segundo lugar, admite no organismo um sujeito substancial próprio da vida orgânica… que recebe os nomes de princípio vital, enteléquia (Driesch), forma essencial ou alma (escolásticos)” (12, p. 554-5). Deste modo, são consideradas vitalistas as doutrinas “que põem como fundamento dos fenômenos vitais uma força vital independente dos mecanismos físico-químicos” (2, p. 967).

    O vitalismo sofreu um grande abalo em 1828, quando pela primeira vez foi sintetizada em laboratório uma substância orgânica (a uréia). Isto reforçou o ponto de vista daqueles que propunham ser o fenômeno da vida inteiramente explicável pelas propriedades físico-químicas da matéria que constituía os seres vivos. Surgiu então o chamado neovitalismo, que, embora admitindo a influência dos fatores físicos e químicos nos processos vitais, considerava estes últimos como não redutíveis inteiramente às leis da matéria que os constituía (2, p. 967). Atualmente o termo vitalismo tem sido comumente empregado para designar concepções que são na verdade neovitalistas, e o utilizaremos aqui neste sentido amplo.

    Reich, que foi quem desenvolveu e sistematizou melhor o conceito de bioenergia a partir da concepção freudiana de libido, declarou a influência recebida de vitalistas como Driesch e Bergson (50, p.29-31).

    O vitalismo é rejeitado pela ciência atual, a qual, apesar de admitir que os fenômenos vitais têm características próprias e diferentes da matéria inorgânica, sustenta que essa diferença não chega a ponto de caracterizar um princípio atuante supramaterial (2, p. 968).

    3.2. DIFERENÇAS

    Para se ter uma idéia do abismo que existe entre a ciência oficial e certos conceitos referentes à bioenergia, utilizo aqui um recurso didático, que é uma reflexão relativa aos prêmios Nobel. Pela larga popularidade, pela alta soma em dinheiro atribuída aos premiados (cerca de um milhão de dólares), pelo prestígio mundial que confere, esta honraria tem sido considerada nos meios científicos como uma distinção altamente cobiçada, e atribuída somente a autores e trabalhos realmente significativos e originais, que representaram um avanço importante na sua área específica.

    O que se percebe é que, se alguém conseguir convencer a comunidade científica internacional de certas formulações reichianas e neo-reichianas, faria jus a pelo menos 8 prêmios Nobel: 4 no campo da Medicina e 4 no campo da Física. Ressalte-se que o fato de ter ganhado ou não um prêmio Nobel nada significa em termos do acerto ou erro das concepções. O que se quer frisar aqui é a distância entre as concepções reichianas e o que é tido como verdade no âmbito da ciência estabelecida. Além disso, levantar a questão de porque os reichianos e outros adeptos da bioenergia até hoje não conseguiram provar ao mundo o acerto de suas idéias.

    São os seguintes os temas em questão:

Uma nova fisiologia

    Em Reich, Lowen e Boyesen nota-se que a bioenergia está intimamente relacionada a processos fisiológicos e mentais, afastando-se dos conceitos científicos correntemente aceitos.

    As imbricações da bioenergia com o funcionamento fisiológico (intestinos, circulação, cérebro, musculatura, pele etc.) levaria à necessidade do desenvolvimento de um ramo da fisiologia que poderíamos chamar de parafisiologia, ou “fisiologia energética”,  que explicasse e sistematizasse como se dá a influência da bioenergia sobre o funcionamento fisiológico descrito nos livros científicos sobre o assunto. Caberia ainda propor-se, além de uma nova fisiologia, também uma patologia e uma psicologia “energéticas”. A comprovação destes conceitos geraria uma verdadeira revolução médica, tornando obsoletos os atuais livros de Fisiologia, Patologia, Clínica Médica e Psicologia, entre outros.

    Segundo Reich, “As emoções biológicas que governam os processos psíquicos são, em si, a expressão direta de uma energia rigorosamente física, o orgônio cósmico” (50, p.  11). “O orgônio tem um efeito parassimpaticotônico e carrega o tecido vivo, particularmente os corpúsculos vermelhos do sangue. Mata as células cancerosas e muitos tipos de bactérias” (50, p. 307).

    Gerda Boyesen afirma que os esquizofrênicos perdem os dentes devido à “má circulação da energia (a estase)” que “faz o papel de uma esponja que conserva a má energia e os maus fluidos.  Como estas camadas de estase não eram eliminadas, o sangue novo não podia penetrar nestas zonas” (7, p. 62). “A energia cósmica acariciava os tecidos, as zonas erógenas, e assim provocava as sensações de prazer” (7, P. 64). “Eu realmente havia observado que a energia cósmica nas proteínas provoca a contração, e que a energia cósmica nos tecidos musculares também provoca a contração” (7, p.  65). “A fixação oral é uma real acumulação da energia vital na boca” (7, p. 75). A bioenergia pode ter um efeito à distância: “uma sala de terapia pode estar cheia desta energia psíquica, curadora, ou vazia e ‘seca’. Quando estou diante de meu paciente, no lugar mais profundo de meu ser, uma energia psíquica passa através de mim e produz um efeito de cura sobre o paciente” (7, p. 110). “A presença dos fatores irritantes e da estase em diferentes regiões do cérebro é a causa fisiológica das alucinações visuais e auditivas”, pois “a psicose se deve à presença de um fluido energético no cérebro” (7, p.  113). é dito que “a bioenergia pode gerar alterações da cor da pele e enxaquecas” (p. 113). Os gânglios parassimpáticos da garganta “param o movimento de energia emocional ascendente antes que ela atinja o cérebro, e assim evitam os riscos da psicose ou de hemorragia cerebral” (p. 114). “Quando a energia circula bem … o colesterol é dissolvido”, sendo portanto que “a arteriosclerose é uma doença energética” (p. 115). Pessoas invejosas “sugam a energia dos indivíduos bioenergéticos e podem chegar a deixá-los muito doentes” (p. 129).

    Conforme Lowen, “Os processos psíquicos bem como os somáticos são determinados pela operação desta energia. Todos os processos vitais podem ser reduzidos a manifestações desta bioenergia” (35, p. 33). “O fenômeno da obsessão … representa dinamicamente uma sobrecarga dos lobos frontais” (35, p.  265). “A depressão em seu nível de energia pode ser vista no rebaixamento de todas as suas funções energéticas: a respiração está diminuída, o apetite e o impulso sexual debilitados” (36, p. 42). “Além do alimento … o indivíduo se torna excitado ou carregado pelo contato com forças positivas” como um dia claro, uma pessoa feliz, uma cena bela (36, p.  47). Afirma-se que “a glândula tireóide regula a produção de energia” (36, p. 208). “A motilidade de um corpo está diretamente relacionada ao seu nível de energia” (36 p. 232).

    Este é o único dos 8 temas aqui listados que está diretamente ligado à técnica psicoterápica.  Quanto aos demais, sua correção ou não, apesar de sua importância em outros campos, não alteraria aquilo que se diz e se faz no campo das psicoterapias reichianas e neo-reichianas. Este também é o único que comporta conceitos comuns a Reich e aos neo-reichianos, sendo os demais praticamente específicos da Orgonomia. Em outras palavras, a Orgonomia vai mais longe do que os neo-reichianos na ruptura com a ciência estabelecida, e talvez este seja um dos motivos do afastamento dos neo-reichianos em relação à biofísica orgone.

A geração espontânea

    “O desenvolvimento dos bions, formados a partir da água destilada orgonicamente carregada, demonstra sem a menor sombra de dúvida, o processo de formação primária da matéria orgânica a partir do orgone livre de massa” (52, p. 195).

    Desde os experimentos de Pasteur no século passado, está soterrada nos meios científicos a idéia da geração espontânea, ou seja, de que a vida atualmente possa surgir da matéria não-viva.  Assim, a eventual prova científica disto constituiria sem dúvida um grande feito.

Fisiopatologia e cura do câncer

    Em seu livro  sobre o câncer (49), Reich descreve sua teoria relativa à origem desta doença,  atribuída a disfunções orgonóticas, e afirma a possibilidade de curá-la a partir de um tratamento baseado na aplicação de energia orgone concentrada.  Em livro de Boadella há um capítulo (5, p. 181-205) onde são comentados os estudos de Reich e outros pesquisadores neste campo, ressaltando o autor a dificuldade de uma avaliação correta dos resultados obtidos devido ao fato de os relatos originais terem sido proibidos para divulgação ou então incinerados após o julgamento de Reich, por ordem judicial.

    Desnecessários se fazem aqui maiores comentários sobre a repercussão que teria na ciência e na opinião pública mundial a compreensão dos mecanismos geradores desta doença e a comprovação de um método eficaz de cura para a mesma. Principalmente sabendo-se que a mortalidade por câncer vem se mantendo inalterada nas últimas décadas, apesar de todo o progresso nas áreas de diagnóstico e tratamento (4).

Fisiologia sensorial

    Reich afirma que “a sensação não é por nenhum meio amarrada às terminações nervosas sensoriais. Toda matéria plasmática percebe, com ou sem nervos sensoriais” (52, p. 117-8).

    Segundo Lowen, “ao que parece, em estados altamente carregados, o organismo pode ultrapassar o limite de sua aura ou campo, que, então, permanece no local onde estava, na forma de um corpo, seguindo-o como uma sombra” e “graças à ponte energética entre os dois  sistemas, a percepção do self é duplicada” (35, p. 311).

    O conceito da possibilidade da percepção ser mediada por mecanismos outros que não através dos órgãos dos sentidos e do sistema nervoso colocaria de pernas para o ar concepções que são universalmente aceitas nos meios científicos, e certamente ampliaria enormemente os horizontes da Psicologia e da Fisiologia da Percepção.

Uma nova forma de energia

    A própria comprovação de uma nova forma de energia, diferente das até aqui conhecidas, constituiria realmente um feito científico do mais alto nível, aprofundando nosso conhecimento sobre a natureza, além de abrir amplas possibilidades de utilização prática em inúmeros campos. O mesmo pode ser dito em relação aos itens seguintes.

Anti-entropia

    Reich afirma que a energia flui do sistema mais fraco ou menos carregado para o mais forte ou mais carregado. E conclui que, “em aceitando esta função, a ‘segunda lei da termodinâmica’, a formulação absoluta da ‘lei da entropia’, se torna inválida” (52, p. 143). O tema é discutido com maiores detalhes em artigo publicado recentemente por seguidores reichianos (3), onde são reafirmadas e desenvolvidas as idéias de Reich sobre o tema.

A teoria da gravitação

    “O oceano orgone aparece como o motor primordial dos corpos celestes” (52, p. 187). “O sol e os planetas se movem no mesmo plano e giram na mesma direção devido ao movimento e à direção da corrente de energia orgone cósmica na galáxia. Deste modo, o sol não ‘atrai’ absolutamente nada” (52, p. 191). Há “um envoltório de energia orgone que não somente envolve o planeta mas também o arrasta, tal como as ondas aquáticas levam uma bola na direção de sua progressão” (52,  p. 253). “O envoltório orgone equatorial fornece o motor físico concreto dos planetas”. “O sol não ‘atrai’ os planetas. Ele gira no mesmo plano e na mesma direção, movendo-se com os planetas na corrente de energia orgone equatorial” (52, p. 257). “A função da gravitação é real. Ela é, contudo, não o resultado da atração de massa, mas dos movimentos convergentes de duas correntes de energia orgone” (52, p. 275).

A geração de matéria e das galáxias

    “A massa inerte está sendo criada pela superposição de duas ou mais unidades de energia orgone, girantes e espiraladas, através da perda da energia cinética e da curvatura abrupta da trajetória alongada em direção a um movimento circular” (52, p. 186). “O anel de Saturno parece demonstrar sua origem a partir de uma concentração em forma de disco de energia orgone” (52, p. 229). “Assim, não matéria, partículas ou poeira, mas a energia orgone primordial constituiria a ‘ coisa’ original da qual as galáxias são feitas” (52, p. 237). “A hipótese orgonômica e energética requer que a matéria emerja da energia orgone por meio da superposição no domínio microcósmico, do mesmo modo que galáxias inteiras emergem por meio da superposição no domínio macrocósmico” (52, p.237).

    3.3. A METODOLOGIA CIENTÍFICA

    Além das diferenças conceituais, há uma divergência com a ciência estabelecida quanto ao método científico. Percebe-se muitas vezes um afastamento do rigor tão valorizado pelos cientistas na análise de resultados experimentais e na avaliação crítica das fontes de referência.

    Tome-se por exemplo o modo pouco rigoroso e nada crítico com que Reich lida com informações no mínimo questionáveis: “Por esse mesmo tempo, recebi um recorte de jornal que noticiava experimentos realizados em Moscou. Um cientista (esqueço-me do nome) conseguiu demonstrar que o óvulo e as células espermáticas produzem indivíduos masculinos ou femininos conforme a natureza da sua carga elétrica” (50, p. 241). Ou seja, ao comentar uma “demonstração” que confirmava suas próprias teorias, não há preocupação em verificar o nome do autor (não  seria um charlatão ou um investigador não qualificado?), em verificar se a metodologia de investigação foi adequada, e se os resultados obtidos realmente permitem afirmar o que foi dito, a partir de artigo publicado em revista científica ou de comunicação direta com o autor, ou ainda questionar se o experimento foi repetido em outros laboratórios com os mesmos resultados. Isto fica ainda mais significativo se for levado em conta que estas considerações de Reich estão colocadas em um livro que expunha conceitos que desafiavam frontalmente a ciência estabelecida.

    Outro exemplo de metodologia deficiente é o que acontece quando Reich faz afirmações extremamente abrangentes e inovadoras sobre a formação das galáxias e a gravitação, e afirma: “Até este ponto, deduzimos nossas conclusões a partir de uma única função celestial, o anel da aurora, e sua posição em relação aos planos galáctico e equatorial” (52, p. 258)

    Lowen define a Bioenergética como “o estudo da personalidade em termos dos processos energéticos do corpo” (36, p.  40), e todo o raciocínio diagnóstico e terapêutico é fundamentado no conceito de bioenergia. Entretanto, este autor afirma: “Não acredito que seja importante para o estudo presente determinar com precisão o  caráter real da energia da vida. Cada um desses pontos de vista (ciência, Reich, acupuntura) tem sua validade e eu não consegui ajustar as diferenças entre eles” (36, p. 40). é estranho que um conceito tão básico e fundamental seja deixado em tal grau de indefinição e  incerteza, mesmo porque em outros locais são feitas afirmações que pressupõem uma teoria mais detalhada e específica do que seja a bioenergia.

    Existe toda uma produção de trabalhos experimentais publicados por Reich sob a forma de artigos científicos em periódicos fundados por ele, como por exemplo o “Orgone Energy Bulletin”. Não cabe aqui um exame detalhado da metodologia utilizada, mas esta é uma tarefa a ser realizada futuramente para melhor compreensão da questão. Há aí uma contradição, que precisa ser passada a limpo, entre a descrição de experimentos aparentemente científicos, e as conclusões derivadas dos mesmos, frontalmente contrárias às concepções científicas vigentes.

    Essa despreocupação com a metodologia científica parece ser uma constante em Reich e na grande maioria dos outros autores da área. Isto tem dado margem a críticas severas, como a de Rycroft, o qual afirma que “de um ponto de vista científico, há algo de patético nas descrições que Reich fez das suas experiências e teorias. Essas experiências parecem ter sido planejadas e realizadas de um modo totalmente amador e desvalioso sem, especialmente, qualquer compreensão da necessidade de controles adequados, enquanto suas teorias estavam repletas dos mais elementares erros de biologia e física.  Fica-se com a impressão de que Reich … não tinha a menor compreensão do método científico” (55, p. 104).

    Reich rebate as críticas metodológicas afirmando que elas surgem devido à estrutura neurótica daqueles que o criticam. Segundo ele, “a pesquisa científica natural é uma atividade que se baseia na interação entre observador e natureza, ou, dito de outra maneira, entre funções orgonóticas dentro do observador e as mesmas funções fora dele. Deste modo, a estrutura de caráter e os sentidos de percepção do observador são ferramentas importantes, se não decisivas, da pesquisa natural.” “A estrutura do observador é importante dado que é a energia orgone organísmica em seus órgãos sensoriais que reage aos fenômenos orgônicos externos” (52, p. 157). Assim, “organismos humanos com baixa potência orgonótica ou com encouraçamento acentuado não percebem facilmente  os fenômenos relacionados à energia orgone, ao contrário dos organismos saudáveis” (52, p. 156). “Eu temo que sejam as funções emocionais e, dentro do campo emocional, especialmente as funções biossexuais, que tenham impedido o pesquisador clássico de transpor o fosso entre a natureza que observa (biopsíquica) e a que é observada (biofísica)” (52, p. 157-8).

    Reich relata o caso de um físico, um cientista talentoso e adepto das concepções científicas tradicionais, que se submeteu à terapia com ele.  Com o tratamento, e conseqüente desbloqueio da couraça, emergiu uma profunda ansiedade. “Era a mesma ansiedade que ele havia desenvolvido quando criança devido às suas poderosas sensações de órgãos (organ sensations). Na sensação de órgão, o homem experiencia a função orgone da natureza em seu próprio corpo. Agora esta função estava carregada de ansiedade, e portanto inibida. Nosso físico queria devotar-se à biofísica orgone porque ele estava convencido da sua exatidão e significado. Ele havia visto o orgone na sala metalizada e o havia descrito em detalhe. Mas sempre que ele considerava a possibilidade de fazer um trabalho prático, uma forte inibição se instalava, a mesma inibição baseada no medo de entrega total, de abandono incondicional às sensações do seu próprio corpo. No processo de orgonoterapia, a seqüência de avanço, e recuo por medo, se repetiu tão freqüentemente e tão tipicamente que não podia haver dúvida de que o medo das sensações de órgão e o medo da pesquisa científica sobre orgone eram idênticos. As reações de ódio que vinham à tona eram as mesmas que encontramos em contatos com físicos e médicos em relação ao orgone” (52, p. 85-6).

    Em resumo, Reich afirma que os cientistas encouraçados não poderiam perceber os fenômenos descritos pela ciência orgonômica, e assim não estariam em condições de julgar seus resultados.  

    O que se pode concluir é que os conceitos reichianos no campo da energia orgone estão muito distantes da verdade científica tal como aceita nos dias de hoje. Muitos críticos de Reich consideram seus conceitos sobre orgone como meras bobagens de um autor mentalmente perturbado. Seus defensores podem argumentar que talvez ele tenha percebido, intuído ou verificado coisas que o futuro revelará como corretas, e que a ciência atual é rígida e estreita, um produto de mentes e corpos encouraçados e defendidos contra a vida.  O que parece claro é que, na questão do orgone, Reich pode estar muito à frente ou muito atrás da ciência atual, mas certamente não está em concordância com ela.

  1.      BIOENERGIA E RELIGIÃO

    Vimos no item anterior que os conceitos de bioenergia estão bastante distantes do que a ciência aceita como verdade. Isso pode assustar muita gente, já que a nossa cultura coloca aos profissionais da saúde a opção inelutável entre ciência e charlatanismo. Ou seja, se você não está embasado cientificamente, você é um charlatão, parece ser o axioma de nosso tempo. O próprio Reich acabou sendo encarcerado a partir deste conflito. Talvez tenha sido o medo inconsciente dessa questão o que levou todos os fundadores de linhas psicoterápicas corporais a cunhar nomes que remetessem ao concreto, ao corpo, à biologia: Orgonomia, que lembra orgânico, organismo (Reich); Bioenergética (A. Lowen); Psicologia Biodinâmica (G. Boyesen); Biossíntese (D. Boadella), Educação Somática (S. Kelleman).

    Curiosamente, podemos perceber que Reich foi em direção ao corpo, ao biológico, à ciência, literalmente ao palpável e visível, e encontrou o espírito, a religião, o transcendente. Se os conceitos de bioenergia parecem estar como um peixe fora da água no campo da ciência, na religião oriental pisa-se em terreno familiar. Para o hinduísmo, budismo e taoísmo, o conceito de uma energia vital que flui ao longo  do corpo, e cujo bloqueio leva a sintomas e doenças físicos e mentais, é algo aceito há milhares de anos.

    Como se sabe, o consultório de psicoterapia sucedeu ao confessionário, e a profissão de psicoterapeuta descende diretamente da de padre. Pelo que foi visto, a nossa profissão talvez ainda esteja muito mais próxima da religião do que supúnhamos. Nossas técnicas têm muito mais parentesco com o tai chi chuan (taoísmo), com a hatha yoga (hinduismo) e com o kum-nye (budismo tibetano), do que com a neurofisiologia, a biomecânica, a psicologia experimental, ou outras disciplinas científicas. Não é só a religião oriental que tem semelhanças com as psicoterapias reichianas. É freqüente o relato, por parte de pacientes, de que algumas técnicas de massagem se parecem muito com tratamentos (passes) recebidos em centros espíritas.

    Encontram-se inúmeras semelhanças entre certos conceitos de Reich e idéias hinduístas. Dadas as diferenças entre vários autores hinduístas, tomamos aqui como base para comparação o hinduísmo tal como expresso por Swami Muktananda em sua obra sobre a  energia kundalini (44).

    Como semelhanças, podemos destacar: a) a existência de uma energia universal (energia orgone cósmica – shakti) que se manifesta nos organismos vivos (bioenergia – kundalini); b) esta energia é sutil e superposta à matéria, e flui ao longo do eixo longitudinal do corpo, de baixo para cima; c) há um campo energético que vai além da pele; d) existem  bloqueios ao fluxo ascendente de energia, que são perpendiculares ao eixo do corpo (anéis da couraça – chakras); e) o trabalho sobre a musculatura e a respiração influencia no desbloqueio do fluxo de energia (vegetoterapia – hatha yoga); f) este desbloqueio acarreta, no início do processo, o contato com sentimentos negativos represados, e posteriormente ocorre um desenvolvimento da vitalidade e  da capacidade sensorial; g) ao fim do processo ocorre a fusão da energia organísmica com a energia cósmica (caráter genital – realização do Ser); h) sintomas e doenças físicos e mentais são concebidos como resultado de desequilíbrio energético; i) Amor e Deus podem ser tidos como sinônimos válidos de orgone ou shakti; j) a cor azul está freqüentemente associada às manifestações do orgone e shakti.

    Apesar de tantas coincidências, também são vários os pontos de discordância. Entre estes podemos citar: a) a questão do orgasmo, que para Reich seria fundamental, enquanto que para o hinduísmo o caminho seria  através do ascetismo ou da tantra yoga (sexualidade não orgástica) (15, p. 116-9); b) a segmentação dos anéis da couraça muscular não coincide com os chakras: existiriam dois chakras no anel ocular, e nenhum no anel oral; também dois no anel pélvico e nenhum no  anel diafragmático; c) segundo Muktananda, o ser humano nasceria bloqueado, com a energia kundalini enroscada sobre si mesma no chakra localizado no osso sacro, e para Reich as crianças nasceriam desencouraçadas, sendo posterior o processo de bloqueio; d) a crença em vidas passadas e na noção de karma,  conceitos não presentes na teoria reichiana; e) no hinduismo, o caminho da realização interior é basicamente individual, enquanto que para Reich ele passa pela relação amorosa que permita o orgasmo pleno; f) os conceitos reichianos buscam sua inserção no pensamento racional e científico, e propõem  aparelhos de medição e cura, e no hinduismo as idéias embasam-se no pensamento religioso, lidando fundamentalmente com conceitos estranhos à ciência como devoção e fé; g) para Muktananda, é necessário que o guia para a jornada do autoconhecimento seja um guru, ou seja, alguém que atingiu a perfeição, a realização do Ser, sendo que no pensamento reichiano as qualificações exigidas para ser psicoterapeuta são mais modestas; h) o trabalho  de desbloqueio começa por baixo (Muktananda) ou por cima (Reich); i) a energia se move ao longo das membranas e fluidos do organismo (Reich), e para Muktananda a energia se move ao longo de canais sutis superpostos ao corpo físico, chamados nadis, dos quais o principal  é a sushumna,  localizada na coluna vertebral, e na  qual estão situados os chakras.

    A concepção da Psicologia Biodinâmica parece estar mais próxima dos conceitos taoístas que fundamentam as práticas curativas da medicina chinesa: acupuntura, do-in, shiatsu etc. Segundo esta, há uma energia Yin, oriunda da Terra, e uma energia Yang, oriunda do Céu, do Cosmos.  Estas energias circulam no organismo humano através de canais de energia denominados meridianos. Se considerarmos uma pessoa em pé, com os braços levantados, podemos verificar que a energia Yin circula nos meridianos ascendentes, e a energia Yang nos meridianos descendentes (38, p. 43), mostrando assim uma semelhança com o conceito de energia da Psicologia Biodinâmica. Tal influência é explicitada por Gerda  Boyesen: “a Psicologia Biodinâmica parece se colocar entre a acupuntura, psicanálise, terapia reichiniana e neo-reichiniana, massagem e meditação” (8, p.7). “Decidi chamar o psicoperistaltismo de ‘acupuntura natural do corpo’. Quando faço massagens peristálticas, posso sentir os meridianos” (7, p. 90).

    Aparentemente, Reich não atribuiu grande importância a tais semelhanças, e nem parece ter sido influenciado pelas tradições orientais. Parece ter havido uma mudança na sua atitude quanto às religiões orientais ao longo de sua vida.  Nos escritos iniciais encontra-se uma referência hostil ao hinduismo: “A técnica de respiração ensinada pelos iogues é o oposto exato da técnica de respiração que usamos para reativar as excitações emocionais vegetativas nos nossos pacientes” (50, p. 296). Neste mesmo texto, é criticada a ideologia de autocontrole e superação da emotividade, fruto de um “patriarcado austero e negador do sexo”, que levaria à “expressão facial rígida semelhante a u’ a máscara, dos hindus típicos, dos chineses e japoneses” (50, p. 296).

    Em escritos posteriores, Reich se mostra mais simpático ao hinduismo, ao afirmar: “Encontramos a ênfase na vida … nos antigos sistemas de pensamento das grandes religiões asiáticas como o Hinduismo” (52, p. 14). Em todo caso, em nenhum momento se encontra uma preocupação maior com esta questão, ao contrário de outros psicoterapeutas de seu tempo, como por exemplo Jung (29). Pelo contrário, manteve até o fim uma atitude crítica do misticismo, o qual estaria “enraizado no bloqueio das sensações de órgãos diretas e no reaparecimento dessas sensações na percepção patológica de ‘poderes sobrenaturais’“ (52, p. 93). “O que o organismo encouraçado percebe como ‘ alma’ … é a motilidade da vida, que está bloqueada para ele” (52, p. 115). “O mecanicismo e o misticismo combinam para formar uma imagem extremamente dividida da vida, com um corpo consistente de substâncias químicas aqui, e uma mente lá” (52, p. 116). A identidade funcional entre corpo e mente, “enquanto princípio básico do conceito de vida exclui de uma vez por todas qualquer misticismo. Pois a essência do misticismo repousa no conceito de uma autonomia sobrenatural das emoções e sensações” (52, p. 91).

    Apesar de atribuir pouca importância às religiões, em seus últimos escritos Reich adota um tom mais profético do que científico, e são freqüentes as menções ao conceito de Deus e outras concepções místicas: “por muitos séculos, a religião tem chamado de ‘Deus’ a esta força primordial” (52, p.  158); “há grandes verdades em tais ensinamentos religiosos, mesmo que elas tenham sido distorcidas pelo animal humano encouraçado” (52, p. 137). “’Deus’ como a representação das forças naturais da vida, da bioenergia no homem, e ‘diabo’ como a representação da perversão e distorção destas forças vitais, aparecem como os resultados finais do estudo caracteroanalítico da natureza humana” (52, p. 138).  

    Reich propõe a fusão entre ciência e religião: “as fronteiras que separam a crença religiosa do raciocínio puro foram cruzadas, ou melhor, apagadas pela pesquisa do orgone” (52, p. 169-70). “A descoberta do oceano de orgone cósmico … coloca um fim na compulsão de voltar-se para as profundezas em busca de experiências irreais e místicas. O animal humano vagarosamente se acostumará com o fato de que ele descobriu seu Deus e pode agora começar a aprender os modos de Deus de uma maneira muito prática” (52, p.  281). Um Deus “que finalmente se tornou acessível a ser manuseado, dirigido, e mensurado por instrumentos feitos pelo homem como o termômetro, o eletroscópio, o telescópio, o contador Geiger” (52, p. 283).

    O orgasmo assume papel relevante nestas concepções sobre o divino: “Deus e o processo vital, que em nenhum lugar se expressa tão claramente como na descarga orgástica, são idênticos” (52, p. 138); a função do orgasmo “representa exatamente o que os homens verdadeiramente religiosos chamam seu ‘ Deus inalcançável’“ (52, p. 137).

    Em “O Assassinato de Cristo”, escrito em 1952, Reich mergulha em um intenso, extenso e profundo diálogo com as concepções cristãs. O assassinato de Cristo é tomado como o paradigma da perseguição milenar à “Vida”, por parte dos organismos encouraçados e frustrados. Num livro permeado por várias citações da Bíblia, Reich assimila (um tanto antropofagicamente) as idéias cristãs, adaptando-as às suas próprias teorias:

    “Deus Pai é a energia cósmica fundamental, de onde toda a existência deriva e cujo fluxo atravessa nosso corpo, como atravessa tudo que existe. Mas Deus Pai é também a realidade inatingível do AMOR CORPORAL, mistificado e idolatrado através da noção de Céu” (51, p. 48).

    “Leia atentamente, refletindo bem, o sermão da montanha. Substitua ‘Pai’, que quer dizer ‘Deus’, por ‘Força Vital Cósmica’. Entenda por ‘Mal’ a degenerescência trágica dos instintos naturais do homem” (51, p. 47).

    “…o homem é o Filho de Deus, e Deus é o Oceano de Energia Cósmica do qual o homem é uma parcela minúscula, um movimento, vindo de Deus e indo para Deus, retornando ao seio do Grande Pai” (51, p. 96).

    “Para o orgonomista analista de caráter do século vinte, Cristo possui todas as marcas do caráter genital. Ele nunca poderia ter amado as crianças, as pessoas, a natureza, nunca poderia ter sentido a vida e agido com a graça suprema com que  agiu, se houvesse sofrido frustração genital”. “Não pode haver dúvida, Cristo conheceu o amor físico e as mulheres” (51, p. 35).

    “O mais incompreensível do enigma é que esta vida tenha dado origem a uma religião que, em flagrante contradição com seu fundador, baniu de sua esfera o princípio do funcionamento natural da vida e perseguiu, mais do que tudo, o amor físico” (51, p. 36).

    Esta semelhança com conceitos religiosos, ao mesmo tempo em que criticava o misticismo, levou Rycroft a afirmar que “Reich jamais questionou a idéia de que o racionalismo e as ciências naturais são o único caminho para a verdade. Como resultado disso, formulou o seu sistema de idéias como se tivesse chegado a essas idéias por meio de técnicas científicas de observação e dedução, um caso de auto-ilusão que o levou a exagerar a originalidade das suas idéias e a ignorar  a semelhança com idéias que têm sido manifestadas repetidamente, através da história, por poetas e místicos”, sendo portanto “que o sistema de idéias que o próprio Reich apelidou de ciência da orgonomia pertence verdadeiramente à teologia e ao misticismo, e não à ciência” (55, p. 81). O mesmo autor afirma ainda, mais adiante, que “profundamente reprimido por detrás da sua armadura científica do caráter, havia um poeta da natureza lutando para manifestar-se” (55, p. 92).

    É interessante notar a possibilidade de essa influência cristã em Reich ter ultrapassado o campo das idéias e ter chegado a motivar seu comportamento no final da vida. Em “O Assassinato de Cristo” (51, p. 96-7), ao comentar os comportamentos religiosos equivocados do homem comum, é dito que:

    “Mas um dia haverá um profeta que compreenderá isso e não dará a mínima importância ao fato de acreditarem nele ou não.”

    “Eles o interrogarão, como fizeram com Cristo, em Jerusalém: ‘Com que autoridade você fez essas coisas, e quem lhe deu autoridade para isso? (…) Ele os repreenderá sem reservas. Ele lhes dirá que isso não é da sua conta, que ele tem autoridade para fazer o que faz … que ele não se importa em saber se acreditam nele ou não … que não está ali para convencer”.

    Poucos anos depois, Reich, frente a um tribunal, parece comportar-se como esse profeta que ele descrevera. Boadella, em sua biografia de Reich (5, p. 258-317), frisa como provavelmente teria sido possível a Reich livrar-se das acusações se tivesse adotado comportamento mais pragmático.  Porém a sua recusa em responder às intimações, e em reconhecer a legitimidade do julgamento, levaram-no a ser encarcerado por desacato, sendo condenado, sem se defender adequadamente, por charlatanismo. Visão semelhante sobre o episódio da prisão de Reich é expressa por Mann (39, p. 25).

     Está fora do âmbito deste trabalho a discussão aprofundada sobre a biografia de Reich, mas não parece impossível que houvesse neste episódio um comportamento mais compatível com o de um mártir religioso do que com o de um cientista racional e sensato. Pierrakos parece compartilhar esta opinião quando afirma que Reich, “em vários de seus últimos livros, idealizava sua auto-imagem e apresentava-se como salvador do mundo, como um grande Messias dos tempos modernos (…) é de se questionar se haveria ou não uma intenção inconsciente em seu martírio, pois, ao enfrentar problemas com a ‘Food and  Drug Administration’ do modo como o fez, acabou morrendo na prisão, de ataque cardíaco, um dia antes de ser solto. Seria possível ser mártir, sem inconscientemente desejá-lo?” (46, p.17). Reforça-se assim a hipótese de Reich, em seus últimos anos, estar mais próximo da religião do que da ciência, não só no pensamento, mas inclusive quanto às atitudes.

      5.OUTRAS ABORDAGENS ENERGÉTICAS

    Existem também inúmeras técnicas curativas, comumente chamadas de terapias alternativas, que  trabalham com conceitos vitalistas de energia.

    A homeopatia dispensa apresentações, constituindo um dos principais exemplos do que foi dito acima. Segundo Hahnemann, seu fundador, “o organismo material, destituído da força vital, não é capaz de nenhuma sensação, nenhuma atividade, nenhuma autoconservação (ele está morto e submisso apenas ao poder do mundo físico exterior; apodrece e se dissolve novamente em seus componentes químicos); é somente o ser imaterial, animador do organismo material no estado são e no estado mórbido (o princípio vital, a força vital), que lhe dá toda sensação e estimula suas funções vitais. Quando o homem adoece, essa força vital imaterial de atividade própria, presente em toda parte no seu organismo (princípio vital), é a única, que inicialmente sofre a influência dinâmica … hostil à vida, dum agente morbígeno, é somente o princípio vital, perturbado por uma tal anormalidade, que pode fornecer ao organismo as sensações desagradáveis e impeli-lo, dessarte, a atividades irregulares a que chamamos doença” (26, p. 49).

   Kent, um dos principais discípulos de Hahnemann, aprofunda o conceito vitalista da homeopatia: “a combinação destes dois princípios ou faculdades, vontade e entendimento, constituem o homem: conjuntos,  estes dois princípios fazem ou produzem vida e ação; constroem o corpo e causam todas as coisas” (33, p. 27). Segundo ele, de dentro para fora, “temos a vontade e o entendimento, que formam uma unidade no interior do homem;  a força vital, ou seja, vice-regente da alma (quer dizer, o limbo da alma, a substância formativa), que é imaterial; e depois o corpo, que é material. Desta maneira, temos que a vontade, ou princípio volitivo, é o que dirige, desde o mais íntimo, através do limbo ou substância simples, ao mais exterior, a substância material do homem” e “não há nenhuma célula no homem que não tenha sua própria  vontade e entendimento, sua substância da alma … e sua substância material” (33, p. 56).

    O vitalismo engloba não só a fisiologia e a patologia, mas também a terapêutica, pois “o homeopata não lida com a matéria medicamentosa, mas com a energia do medicamento. Até o presente, só o organismo vivo, homem ou animal, é capaz de reagir a essa energia. Não é mensurável por nenhum instrumento de precisão”. Afirma-se que “a massa real de medicamento diminui cada vez mais, não há dúvida, mas a energia da substância original … transmite-se presumivelmente ao veículo (álcool, açúcar)” (6, p. 81).

   A acupuntura, que também dispensa apresentações, está fundamentada em conceitos taoístas.  No Nei Ching, escrito na China há cerca de 4500 anos, é dito que “o princípio do Yin e do Yang – os elementos masculino e feminino da Natureza – é o princípio básico de todo o Universo. É o princípio de tudo quanto existe na Criação”.  “A fim de tratar e curar doenças, há que investigar a sua origem.” (1, p. 25).

    Em livro de um autor ocidental sobre o tema, encontramos a afirmação de que “Qi, a energia da vida, flui através de doze meridianos, num fluxo constante do qual depende a saúde do corpo … entretanto, desde que Qi seja bloqueada de algum modo, causando excesso em algumas partes e deficiência em outras, a moléstia se apresenta” (38, p. 26). “O aspecto terapêutico da acupuntura está ligado … com o estímulo, usualmente por meio de uma agulha, de pontos especificamente indicados, com o objetivo de tonificar ou acalmar, isto é, aumentando ou diminuindo a qualidade e a quantidade de Qi em um determinado órgão ou meridiano que esteja afetado” (38, p. 52). O autor explicita suas convicções vitalistas, dizendo que “chegará o dia, penso eu, que a ciência reconhecerá que há mais do que trocas de efeitos químicos e físicos para que a vida se manifeste” (38, p. 23).

    Encontramos também abordagens energéticas na Medicina Antroposófica, Ayurveda (Medicina dos Vedas), Medicina Floral de Bach, Medicina Psiônica, Macrobiótica, Corterapia, “Pyramid Healing”, Radiônica, Reflexologia, Radiestesia Médica, Cura Metafísica, Cirurgia Psíquica (28, 58).

    Estudos sobre as medicinas tradicionais de várias culturas antigas e atuais mostram a íntima conexão entre técnicas de cura e conceitos religiosos e vitalistas, com muitas semelhanças com o que  temos visto até agora (10).

    Além destas técnicas curativas, existem várias linhas de massagem que estão fundamentadas em conceitos semelhantes.

    A Massagem Rítmica, baseada na Antroposofia de Rudolf Steiner, tem seus conceitos específicos: “a base corpórea de uma personalidade plenamente humana é, portanto, o quádruplo corpo físico. O corpo etéreo, ancorado no líquido, desempenha o papel de mediador entre o anímico-espiritual e o físico-somático.  O primeiro dever de uma arte de curar ampliada será levar em consideração este corpo etéreo” (27, p. 25). As mãos têm função importante na atuação sobre estes corpos sutis: “não é portanto a cabeça que tem relação com a espiritualidade do macrocosmo”, mas sim “os membros (que) são como raios através dos quais a espiritualidade se irradia para o nosso interior”. “Através das extremidades podemos atrair forças para vitalizar partes mais centrais” (27, p. 128).

       A massagem de polaridade afirma que “direciona a força vital ao longo do seu caminho natural para diluir os ‘nós’ de energia causados por excessos emocionais e físicos” (25, p.  22), sendo que esta “força vital é uma forma sutil de energia eletromagnética é a corrente animadora de vida e uma realidade fisiológica no corpo” (25, p. 20).

    Na Massagem Psíquica, a “fonte de toda manifestação de vida é a Energia. No entanto, interrompemos essa vida em nosso interior nos apoderando de fragmentos da Energia total, os quais, isoladamente, são desequilibrados” (41, p. 112). A cura se realizaria através da ação da “Energia” do massagista sobre estes pontos bloqueados.

    Existe até um “Manual Prático da Energia Psíquica” (42), no qual é ensinado como uma pessoa pode perceber, aumentar e harmonizar a  sua própria energia psíquica; como transmitir e receber essa energia; como “limpar” ambientes e objetos da energia psíquica negativa neles impregnada; e como construir uma barreira individual para se proteger de emissões dessa energia negativa. Nesse livro se afirma a existência de “uma substância física produzida no corpo, e damos a essa substância o nome de energia psíquica. Os iogues chamam-na ‘prana’, os praticantes de artes marciais dão a essa mesma substância o nome de ‘chi’, e os terapeutas, de ‘bioenergia’. A energia psíquica é gerada por todas as coisas vivas e transferida entre elas. Essa transferência é a base de todos os acontecimentos psíquicos e faz parte de toda comunicação humana. A energia psíquica é uma substância física, um meio flexível leve e difuso, mas que pode ser compactado e moldado de maneira a se tornar imediatamente perceptível pelos sentidos físicos” (42, p. 9).

    Existe também um livro que pode ser considerado um “tratado sobre bioenergia”, pois nele se fala de praticamente tudo que tem sido relacionado com conceitos vitalistas. O nome de energia sutil é utilizado “para descrever todas as energias físicas e suprafísicas sutis até o nível das vibrações mentais ou de pensamento” (13, p. 95), sendo que “as energias subatômicas e eletromagnéticas estão entre as primeiras manifestações físicas da energia sutil” (13, p. 105). Segundo o autor, “além dos campos mais óbvios, magnético e eletrostático, existem também energias mais sutis na Terra, detectáveis pela intuição direta ou pela percepção sutil – e também pela radiestesia”, sendo que “os lugares onde essas faixas de energia se cruzam são chamados de zonas geopáticas” (13, p. 199), que podem influenciar doenças, acidentes e outros eventos. Neste livro são discutidos aspectos conceituais (baseados na filosofia hinduísta) e suas inúmeras implicações, como as curas “energéticas”, a assim chamada “poluição eletromagnética”, o poder “energético” dos cristais e sua utilização prática, aspectos da radiestesia, o campo energético ou aura, o corpo etérico, a influência energética das formas piramidais, fotografias Kirlian e muitos outros temas relacionados com o assunto.

    Desta maneira, percebe-se que o conceito de bioenergia não é específico das psicoterapias reichianas, mas tem conexões com muitas outras técnicas curativas atuais, e também com as medicinas tradicionais de vários povos e épocas. Neste sentido, acredito que a elucidação do enigma da bioenergia passa pelo intercâmbio e pelo diálogo entre as psicoterapias reichianas e as demais abordagens “energéticas” do ser humano e da vida.

  1.      CONCLUSÕES

    6.1. A QUESTÃO DOS FATOS

    O fundamental nessa questão toda é que somos “curadores”. E como tal, temos não só o direito, mas principalmente o dever de buscar tudo que possa nos auxiliar nessa difícil tarefa. Encontramos coisas válidas na ciência, na arte, na religião, na filosofia, na política, no esporte, e isso sem esgotar as possibilidades da experiência humana.

    Se os nossos fundamentos parecem frágeis aos olhos da ciência, temos o apoio dos fatos, da nossa prática. Qualquer um que se submeta a um processo terapêutico reichiano ou neo-reichiano poderá experienciar coisas que transformam, mobilizam, desbloqueiam, vitalizam. Se isso não puder ser explicado pela bioenergia, cabe então pedir aos cientistas que eles nos expliquem porque é que tudo isso funciona assim dando a impressão de que existe mesmo essa tal de força vital. Parece suceder algo semelhante ao que ocorre com a homeopatia e a acupuntura: seus conceitos são absurdos do ponto de vista da ciência oficial, porém a coisa aparentemente é eficaz! Como dizem os italianos, “se non è vero, è bene trovato”, ou seja, parece haver algo que age nesse nível, e que tem sido descrito com grandes semelhanças ao longo das diversas culturas e épocas.

    Segundo Magee (37, p. 48), expondo idéias de Popper, pode ocorrer de uma hipótese errônea ter algum conteúdo de verdade. Por exemplo, se hoje é terça-feira e eu digo que é segunda-feira, isto está errado. Porém esta afirmação falsa permite chegar a conclusões verdadeiras, como de que “estamos no início da semana”, ou “hoje não é fim de semana”. Dessa maneira, talvez se possa dizer que as teorias sobre bioenergia, mesmo que estejam erradas, constituem uma aproximação à verdade, ou contêm verdades que são um avanço em relação à ignorância, ao desconhecido. Em assim sendo, parece ser mais apropriado avançarmos em direção ao esclarecimento da verdade sobre o assunto do que simplesmente descartar as concepções “anticientíficas” apresentadas neste artigo, o que seria retroceder à ignorância existente antes do surgimento destas teorias e técnicas relacionadas à bioenergia.

    Alguns exemplos na história do conhecimento médico podem corroborar o que foi afirmado.  Encontram-se referências na Antigüidade e na Idade Média sobre o costume de isolar-se indivíduos afetados por algumas doenças contagiosas, sendo que foi somente em 1546 que pela primeira vez declarou-se explicitamente (De Contagione, de Girolamo Fracastoro) a teoria de que doenças específicas resultam de contágios específicos, ainda sem menção à hipótese de microorganismos como agentes causadores (34, p. 20). Ou seja, as teorias “anticientíficas” sobre algumas doenças contagiosas, muito anteriores à teoria microbiana, levavam muitas vezes a atitudes adequadas e corretas.

    Outro exemplo é o clássico estudo de John Snow sobre a transmissão do cólera em Londres.  Seu estudo, em 1854, mostrou que alguma coisa, um “veneno colérico”, estava associado à água consumida pelas pessoas. Isto fez com que se tornasse obrigatória a filtragem de toda água fornecida à cidade a partir de 1857, com grande diminuição da mortalidade por cólera. Recorde-se que foi só em 1863 que Leeuwenhoek descobriu a existência de microorganismos, através do uso de microscópio, e que o vibrião colérico só foi identificado em 1883 por Robert Koch (34, p. 20-30).

    Um exemplo brasileiro pode ser visto em trecho publicado na Gazeta Médica da Bahia de 1868 (23):

    “Causas e remédios do escorbuto. De todas as causas determinantes do escorbuto as mais poderosas, segundo Lind, são sem duvida a humidade e o frio. Todas as mais, a que geralmente se attribúe esta doença não são mais do que predisponentes, que continuadas aggravam a doença, auxiliando as primeiras. N’este caso estão o uso ou antes abuso do sal marinho, a falta de vegetaes frescos, as águas potáveis de má qualidade ou em más condições.

    A prova do que vai dito está na isenção, que ordinariamente têem os officiaes de marinha, por que possuem mais e melhores meios à sua disposição para se preservarem do frio e da humidade.

    Para remediar pois aquelas duas grandes causas etiológicas, convém estabelecer-se a bordo dos navios, alem da ventilação e arejamento, muitos braseiros pelas partes mais profundas e humidas  das embarcações, e aproveitar o fogo da cozinha por meio de tubos, que passem pelas escotilhas e baterias, afim de aquecerem quanto possível as equipagens.

    O melhor preservativo do escorbuto, é conservar a limpeza e o calor.

    Para auxiliar estes dois meios prophylacticos e curativos do escorbuto, reputa tambem Lind muito efficaz o uso das laranjas e dos limões.”

    Hoje em dia se sabe que o escorbuto é causado pela deficiência de vitamina C e os “meios auxiliares e secundários” são na verdade a única terapêutica eficaz.

    A partir destes exemplos percebe-se que a validade prática de muitas concepções não está atrelada à sua veracidade ou à sua exatidão. Se fossemos esperar pela comprovação científica definitiva das causas das doenças descritas acima antes de agir, teríamos que contabilizar muitas mortes a mais por escorbuto, cólera, e doenças contagiosas diversas. Ao contrário, a utilização de conceitos errôneos porém eficazes permitiu não só que se salvasse pessoas mas  também apontou caminhos futuros para a evolução do conhecimento.

    É difícil, ou mesmo impossível, dizer qual destes exemplos corresponde melhor à situação das teorias sobre bioenergia. Distantes da verdade como as teorias medievais relativas ao contágio de doenças; próximas da verdade mas errando na ênfase dada, como a teoria sobre o escorbuto; ou verdadeiras mas imprecisas, como a questão do cólera; ou algo diferente destes exemplos, só o tempo dirá. De qualquer modo, parece estar claro que a validade prática das teorias e técnicas relacionadas com a bioenergia, ou com outros campos do conhecimento, não está necessariamente vinculada ao grau de verdade nelas contido. Isto não contradiz, é claro, a busca do conhecimento da realidade como forma de clarear o que é que está acontecendo exatamente, quais são os procedimentos que têm utilidade, e porque isso acontece.

    6.2. DIVERGÊNCIAS ENTRE CONCEITOS DE BIOENERGIA

    Existem diversos conceitos de bioenergia. Podem se perceber duas atitudes diferentes em relação a isso: uma mais comum, que tenta negar as diferenças, afirmando que se trata da mesma coisa; e outra que adere a um conceito específico e acha que os outros são incorretos ou inadequados.

    Nos diversos ramos de psicoterapia reichiana e nas terapias alternativas percebe-se freqüentemente uma mistura de ambas as posturas: é comum se falar que a bioenergia é a mesma referida em outros sistemas de pensamento, sendo que na prática é desenvolvido um conceito bastante específico e incompatível com os demais. Não é feita uma análise crítica do porque se está abandonando as outras concepções, e na verdade o assunto é discutido como se não existissem outras idéias diferentes relativas ao tema.

    Como exemplo de abordagem não-crítica das diferenças, temos o seguinte texto:

    “Através dos séculos,  a força vital tem sido rotulada com diferentes nomes por muitos povos. Não se trata de uma descoberta recente. Cristo a chamou de ‘luz’; os russos, em suas experiências psíquicas, chamaram-na de  energia ‘bioplásmica’; Wilhelm Reich referiu-se a ela como ‘energia orgone’; os iogues da Índia Oriental chamam-na de ‘pran’ ou ‘prana’; Reichenbach falou dela como ‘força ódica’; para os Kaunas, ela é ‘mana’; Paracelso chamou-a ‘munia’; o termo comum chinês é  ‘chi’ ou ‘ki’; manuscritos alquimistas falam de ‘fluido vital’; Eeman descreveu-a como ‘força x’; Bruner chamou-a energia ‘biocósmica’; Hipócrates chamou-a ‘vis medicatrix naturae’ (força vital da natureza). Ela também tem outros nomes, como bioenergia, energia cósmica, força vital, éter do espaço, etc. E estou certo de que há inúmeros outros. Para simplificar, referir-nos-emos a ela como força vital, ou simplesmente ‘ a energia’ “ (25, p. 20-2).

    Ah! Se tudo fosse tão fácil assim! Vamos simplesmente chamar de energia e pronto. Dá até uma certa inveja desta ingênua pobreza de espírito! Infelizmente (ou felizmente) a realidade não se submete às palavras. O papel aceita sem reclamar qualquer coisa que se escreva sobre ele, mas a verdade é que essa atitude logo esbarra com as várias correntes que reivindicam a validade de suas concepções. Reichianos e neo-reichianos, cada um com seus conceitos. Taoísmo, hinduismo e budismo, também com concepções que não se casam. Homeopatia, terapias alternativas, teorias esotéricas, religiões diversas. Cada um crê que possui a verdade, e fica difícil aderir a algum deles completamente, a não ser que o façamos por um ato de fé. Mas isto não satisfaz a razão. Acredito que uma antiga história pode nos ajudar a lidar com o assunto.

    Havia 6 cegos de nascença que formavam um grupo. Viviam juntos, e viajavam de cidade em cidade pedindo esmolas. Sempre que ouviam falar de elefantes, ficavam curiosos, e tinham muita vontade de conhecer um desses animais. Certo dia, souberam que um circo chegara à cidade, e que lá havia um elefante. Foram até o local, e conseguiram autorização para entrar em contato com o animal. Ansiosos, puseram-se a tatear o animal. O primeiro cego tocou a tromba, e disse: “o elefante parece uma mangueira grossa”. O segundo tocou uma pata, e discordou: “não,  o elefante parece o tronco de uma palmeira”. O terceiro cego, que tocara a presa de marfim, falou: “pois para mim o elefante é duro, curvo e pontudo como um chifre”. O quarto cego tocou a orelha, e deu sua opinião: “como vocês podem dizer tais bobagens? O elefante é largo e chato como uma folha de bananeira”. O quinto cego, que estava tocando a pele do tronco do elefante, achou que este parecia ser áspero e duro como um muro. E o último cego, que havia tocado o rabo, disse: “eu acho muito esquisito o que vocês estão dizendo, porque é óbvio que o elefante é como uma corda grossa com fios soltos na ponta”. Como o elefante começasse a se incomodar com o barulho e a palpação, o responsável mandou os cegos embora e lá se foram eles a discutir o que era o elefante, e diz-se que nunca conseguiram chegar a um acordo.

    A discussão sobre bioenergia parece ser muito semelhante a esta história. Tanta gente fala sobre isso, tantos são as propostas de atuar em relação à bioenergia, e todas com resultados práticos, que talvez haja alguma verdade aí. Porém é difícil neste momento afirmar qual é esta verdade.  Resta um trabalho de diálogo, de abandono dos preconceitos e dos fanatismos, para ver se chegamos mais perto do “elefante”, e não das suas partes. E também, talvez principalmente, a humildade de assumirmos que ao falar de bioenergia não sabemos exatamente do que estamos falando.

    Dentro desta integração de conceitos, acredito que seria importante para o debate que as várias escolas neo-reichianas se posicionassem claramente em relação à Orgonomia. Ou aceitá-la, e aí falar dela e utilizar seus recursos, ou descartá-la e criticá-la explicitamente, expondo opiniões, não tendo medo do debate. Ou aceitar uma parte e criticar outra. Mas o essencial é sair desse silêncio que não gera discussão e não faz avançar o conhecimento.

    6.3. DIÁLOGO COM A CIÊNCIA

    Acredito que o método científico possa trazer maior clareza e melhores critérios para a discussão sobre o que é bioenergia. Muito se poderia ganhar pela aplicação daquele que Popper considera “o único método de toda discussão racional, e, por isso, tanto das ciências da Natureza  como da filosofia: me refiro ao de enunciar claramente os próprios problemas e de examinar criticamente as diversas soluções propostas” (47, p. 17).

    Creio ser necessário desenvolvermos uma epistemologia das psicoterapias reichianas, nos moldes do que Gonçalves se propõe a fazer com o Psicodrama. Tomando, conforme Russel, a epistemologia ou teoria do conhecimento como um “escrutínio crítico do que é tido como conhecimento”, a autora busca “critérios para diferenciar o conhecimento (episteme) da opinião (doxa). Segundo uma interpretação contemporânea, podemos dizer que os juízos ou enunciados por meio dos quais a opinião se expressa não são verificáveis e que … não se pode chegar a conclusão alguma a respeito de serem verdadeiros ou falsos” (24, p. 91-2). Em outras palavras, trata-se de sairmos do campo das “opiniões” e adentrarmos no do “conhecimento”, uma tarefa nada fácil, mas que pode ser muito útil. Certamente, na construção desta epistemologia das psicoterapias reichianas, a questão da bioenergia será um dos principais pontos a serem trabalhados, especialmente o campo da “fisiologia energética”, como já ressaltado anteriormente.

   Neste sentido, é essencial a preocupação com a metodologia. O fato de Reich expressar opiniões exóticas, e até risíveis do ponto de vista científico oficial, não é necessariamente um demérito.  Como afirma Magee, “quanto mais ousada a teoria, tanto mais ela nos diz – e mais atrevido o ato imaginativo. (Simultaneamente, contudo, torna-se maior a probabilidade de ser falso o que a teoria afirma e é preciso submetê-la a testes rigorosos para verificá-lo). A maior parte das grandes revoluções científicas deveu-se a teorias temerárias, que exigiram imaginação criativa, profundidade de visão, independência de espírito e um pensamento desejoso de aventurar-se em regiões inseguras” (37,  p. 32). Ou seja, diálogo com a ciência não quer dizer jogar fora os conceitos e práticas reichianos que não se harmonizam com as teorias científicas vigentes. Significa sim o desenvolvimento metodológico: examinar criticamente, submeter a testes, debater a partir dos fatos e resultados com que lidamos em nossa prática (11).

    Dentro da Homeopatia esta questão está bem mais adiantada, e já existem ensaios clínicos (53, 57) e pesquisas sobre os fundamentos homeopáticos (56) que buscam o desenvolvimento de uma metodologia, cientificamente rigorosa, que seja adequada às suas especificidades.

    Além do aspecto conceitual, de desenvolvimento do conhecimento, existe também um aspecto prático: nossa cultura é, ou tenta ser, fundamentada na ciência como fonte principal, ou mesmo única, de legitimação do conhecimento. Assim, para que as práticas e os conhecimentos de psicoterapia reichiana possam se expandir e se difundir, é inevitável que haja um diálogo com a ciência. Senão, é inevitável que permaneçamos no gueto, no campo dos alternativos, como mais uma seita exótica que diz coisas absurdas, e que faz curas “milagrosas”, como a magia, o ocultismo, os médiuns espíritas e outros.

    Enquanto nossas atividades e conceitos não forem cientificamente palatáveis, ficaremos de fora das universidades, das publicações científicas, das bolsas de estudo. Todo este conhecimento, que tanto poderia ajudar as pessoas, ficará fora do alcance dos profissionais encarregados de cuidar delas, ou seja, os médicos, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos etc. etc..

    Dado que nossas práticas chegam a bons resultados, algo deve acontecer que leva a isso. Se for conseguido o esclarecimento científico do que é que propicia tal eficácia, pode ser que finalmente se faça luz sobre a existência de algo que tenha as características do que hoje conhecemos como bioenergia. Pode ser que seja outra a explicação, e que possamos explicar nossos resultados em termos de disciplinas científicas já existentes, como a neurofisiologia, a cinesiologia, a biomecânica. Pode ser que se revele que o que hoje conhecemos por bioenergia na verdade é o nome comum de uma multiplicidade de fenômenos diferentes. Ou pode ser ainda que a pesquisa nesse campo leve a novas descobertas, novos ramos do conhecimento, quem sabe?

    Qualquer que seja o resultado, teremos mais clareza do que é que acontece no ser humano quando partimos nesta viagem em busca do seu íntimo através do corpo e da mente. Nosso conhecimento poderá fecundar e ser fecundado por outros ramos do conhecimento e de prática.  Poderemos talvez sair do eterno conflito onde os reichianos criticam a cegueira dos cientistas, e os cientistas criticam o espírito supersticioso e irracional dos reichianos.

    Um outro ponto a considerar é a questão do nome. Energia, ou bioenergia, talvez não seja um bom nome. A física, a química e a biologia já têm uma definição bastante precisa do que seja energia, e me parece que a “coisa” com a qual lidamos não é simplesmente mais um tipo de energia, nesta acepção. Com a desvantagem de que a insistência neste nome pode gerar conflitos e discussões inúteis. Tomando como referência o indivíduo deprimido, que todos os reichianos e neo-reichianos apontam como exemplo de “baixa energia”, podemos verificar que, se colocarmos nessa pessoa um soro glicosado por via endovenosa, e se o pusermos a respirar oxigênio puro, a energia fisiológica disponível aumentará, mas a depressão se manterá inalterada. Reich, em seus primeiros trabalhos, levantou a hipótese de uma qualidade bioelétrica da energia (50, p. 232), o que nos levaria a pensar num possível uso de pilhas elétricas na forma de supositório como terapêutica para depressão, o que é obviamente absurdo. Pelo exposto acima, talvez denominações como força vital ou semelhantes sejam mais adequadas.

    Não poderíamos deixar de citar aqui os trabalhos de Gaiarsa (20, 21, 22), que apesar de não ter se constituído numa linha terapêutica específica, tem contribuições bastante originais e pertinentes ao tema aqui  abordado. Trata-se, até onde vai o meu conhecimento, do único autor inspirado na herança reichiana que tenta fundamentar a psicoterapia de abordagem corporal em conceitos científicos. E é interessante notar que em seus textos ele praticamente não utiliza o conceito de bioenergia ou afins.  Talvez seja este um dos motivos deste autor ter ficado mais ou menos à margem da corrente principal das teorias e práticas reichianas e neo-reichianas em nosso país.

    6.4. AS TRADIÇÕES ESPIRITUAIS DO ORIENTE

    O conhecimento científico não é o único que pode servir como fonte de conhecimento.  Tradições que datam de milhares de anos certamente têm alguma contribuição a dar quanto ao ser humano. Mesmo que seja minimamente através de práticas mentais e corporais que poderiam ser tomadas isoladamente de suas conexões religiosas. Isto aconteceu bastante com a ioga, onde certos autores a concebem simplesmente como uma série de exercícios físicos saudáveis e nada mais.

    As concepções de Reich sobre o fenômeno religioso e sua relação com a psicologia humana me parecem um tanto limitadas, e incapazes de dar suporte conceitual a uma maior interação com os ensinamentos das tradições orientais. Conforme Pierrakos, Reich “tinha uma profunda sensação cósmica, mas, a meu ver, não conseguiu efetuar as conexões finais com o conceito de alma, como o fez Jung. Jamais aceitou a verdadeira espiritualidade em seus trabalhos publicados” (46, p. 16). Segundo este mesmo autor, “Reich não enxergou o outro lado da verdadeira espiritualidade, ao qual Jung dedicou toda sua vida. A impressão é que Reich deve ter tido um problema sério nessa esfera, que ele nunca elaborou. Chamou-o misticismo e explicou-o como cisão na unidade da estrutura.  Incorreu no erro comum de rejeitar toda espiritualidade em virtude dos excessos e do charlatanismo” e “não diferenciava espiritualidade de misticismo distorcido” (46, p. 17). Neste sentido, e concordando com Pierrakos, creio que há necessidade de nos voltarmos para um estudo mais aprofundado da psicologia de Jung. O contato com algumas obras de sua autoria (29, 31, 30) parece levar à conclusão inevitável de que este autor já se debruçou bastante sobre o tema e pode ter contribuições valiosas a serem aproveitadas. Existem inclusive propostas de psicoterapia que incluem trabalho corporal numa abordagem junguiana (40, 43), e que podem facilitar um diálogo com as psicoterapias reichianas.

    Não há necessariamente uma incompatibilidade entre a proposta de fundamentação científica e a continuidade do contato com as tradições religiosas. Exemplo disso são as pesquisas que têm sido feitas em relação à Meditação Transcendental, mostrando que os adeptos desta prática (relacionada aos ensinamentos religiosos tradicionais do hinduismo) apresentam alterações endócrinas duradouras (60), e menor consumo de serviços médicos, presumivelmente pelo seu melhor estado de saúde (45). Numa outra linha de pesquisa, existe um estudo (32) que investiga, entre outros aspectos, o valor da prece e da fé como defesas contra situações de tensão, concluindo pela sua utilidade na diminuição da reação endócrina do organismo submetido a condições estressantes.

    6.5. O VITALISMO

    Acredito que o ressurgimento do debate sobre o vitalismo pode ser de grande utilidade para a compreensão de questões relacionadas à “energia”. Apesar deste debate parecer estar meio fora de moda nos círculos filosóficos, e nos meios científicos a questão ser considerada um tanto quanto ultrapassada, a realidade é que estão vigentes hoje em dia conceitos vitalistas em muitas práticas difundidas como as psicoterapias reichianas, a homeopatia e a acupuntura.  

    Para ser mais preciso, certas concepções de Reich em seus últimos trabalhos na verdade transcendem o vitalismo, na medida em que a energia orgone explicaria não só os fenômenos vitais, mas também estaria na raiz de toda a realidade. Ele critica as afirmações de Bergson de que a ciência tradicional estava certa no campo da natureza inorgânica, porém não dava conta de explicar os processos biopsíquicos.  Reich diz que a “pesquisa orgone não deixa dúvidas de que a pesquisa natural mecanicista falhou não só no campo biopsíquico mas também em todos os outros campos da natureza onde um denominador comum dos processos naturais teve de ser encontrado” (52, p. 99). No entanto, na prática psicoterápica, o que vigora é um conceito vitalista, de uma bioenergia superposta ao funcionamento fisiológico e psíquico. Assim, deste ponto de vista, tem sentido o estudo das concepções vitalistas como contribuição a uma análise crítica das teorias reichianas e neo-reichianas, além de proporcionar uma base conceitual para discutir a integração dos conceitos reichianos com a homeopatia, acupuntura etc.

    Na questão do vitalismo, quanto mais o princípio vital for uma causa desconhecida e inacessível, mais longe estaremos da ciência. Conforme Abbagnano, criticando concepções vitalistas vagas e obscuras, “uma causa assim, exatamente por fugir à observação, não explica nada, e pretende explicar tudo; e é um abrigo da ignorância ou da razão preguiçosa” (2, p.967). No outro extremo, quanto mais claros e detalhados forem os conceitos de bioenergia, e quanto mais geradores de predições e capazes de propor intervenções, mais perto estarão da falseabilidade (capacidade de poderem ser demonstrados falsos), e portanto mais próximos da ciência na concepção de Popper (47).

    6.6. AJUDANDO A CLAREAR

    São listadas a seguir algumas questões que podem ajudar a clarear mais exatamente no que é que acreditam os vários autores e correntes de pensamento. Acredito que a resposta detalhada a cada uma delas possa ser um ponto de partida para a discussão das diferenças e complementaridades entre as diversas concepções sobre bioenergia, já que uma das grandes dificuldades para o exame adequado do assunto é a falta de clareza em relação às divergências existentes. O nome bioenergia é usado de maneira genérica aqui, e pode ser substituído por outras denominações.

Corpo e Bioenergia

    1- Onde se origina a bioenergia no corpo?

    2- Por onde circula a bioenergia no corpo?

    3- Quantos tipos de bioenergia organísmica existem?

    4- Quais são as evidências empíricas (os fatos) que sustentam a hipótese da existência de uma bioenergia organísmica?

    5- Como é que a bioenergia interfere no funcionamento fisiológico?

    6- Quais são as doenças físicas e mentais geradas ou influenciadas pela bioenergia?  Como se dá a influência da bioenergia sobre essas doenças?

    7- O que provoca os distúrbios no metabolismo bioenergético?

    8- O que deve ser feito terapeuticamente para corrigir os desequilíbrios bioenergéticos?

    9- Existe uma bioenergia cósmica? Se sim, qual é a relação entre a bioenergia organísmica e a bioenergia cósmica?

   10- Existe um campo bioenergético além da pele? Se sim quais são suas características e propriedades? É possível atuar terapeuticamente sobre o organismo através deste campo bioenergético? Como?

   11- A bioenergia pode ser transmitida entre pessoas ou organismos vivos? Se sim, de que maneira isto se dá? É possível colocar ou retirar intencionalmente bioenergia positiva ou negativa em um organismo à distância, sem contato físico?

   12- A bioenergia de um organismo pode impregnar objetos, roupas ou ambientes? Se sim, como isto acontece e como se pode lidar com este fato (obter informações, limpeza, detecção)?

   13- A bioenergia organísmica pode ser detectada pelos órgãos dos sentidos? Se sim, como se dá a estimulação dos receptores sensoriais pela bioenergia?

   14- Existe percepção que não dependa dos órgãos dos sentidos? Se sim, como se dá essa percepção?  Qual é o papel da bioenergia nessa percepção extra-sensorial?

   15- A bioenergia organísmica é detectável por meio de aparelhos? Se sim, por quais e em que condições?

   16- A bioenergia pode ser quantificada? Se sim, de que modo e qual é a unidade de bioenergia?

Temas gerais

    1- Qual é a relação entre bioenergia e a energia tal como definida pela Física?

    2- Existe uma entidade supramaterial autônoma e atuante, independente do suporte material orgânico? Existe algo como uma alma?

    3- O que existe de verdade nas diversas religiões e teorias místicas? Alguma delas tem contribuições válidas em relação à bioenergia? Se sim, quais religiões e em que pontos elas contribuem?

    4- Porque existem tantas concepções diferentes sobre o que seja bioenergia? Qual delas está correta?

    5- Porque a ciência se recusa a reconhecer a bioenergia?

    6- A concepção de bioenergia é vitalista ou não?

    7- A Orgonomia é válida inteiramente, parcialmente, ou é totalmente incorreta? Se parcialmente, especifique as partes corretas e as incorretas.

    8- Que tipos de fatos levam à hipótese da existência de uma bioenergia? Quais são as comprovações científicas desta hipótese?

    9- A bioenergia deve ser encarada como um conceito científico, religioso, filosófico, ou algo diferente das alternativas anteriores?

   10- Existe reencarnação ou não?  Se sim, qual é a relação da bioenergia com este fenômeno?

   11- Qual é a relação entre bioenergia e eletromagnetismo?

   12- Qual é melhor nome para designar a bioenergia? Porque?

   13- Qual é a relação entre bioenergia e cristais?

   14- Qual é a  influência de  formas como a pirâmide  sobre a bioenergia?

   15- Qual é relação entre fotografias Kirlian e bioenergia?  

   16- A bioenergia  é específica dos seres vivos  ou é encontrada também na matéria inorgânica?

    6.7. FINALIZANDO

    Para finalizar, existem dois assuntos que devem ser abordados. Um é a minha opinião pessoal sobre a questão da bioenergia. A finalidade deste trabalho não foi expor minhas idéias sobre o tema. O que pretendi foi como que costurar uma colcha de retalhos relativa às várias concepções e aos diversos aspectos do problema e suas ramificações, sistematizar o tema de maneira um pouco mais aprofundada, e apontar caminhos de pesquisa e discussão. Entretanto, creio que seria intelectualmente desonesto não explicitar o meu ponto de vista. Mesmo sabendo que necessariamente incorrerei no desagrado de muitos, pois são tantas, e tão diferentes, as opiniões sobre bioenergia, que qualquer posicionamento conflitará com boa parte delas, de um lado ou de outro.

    O que eu acho é que existem ótimas razões (práticas) para acreditar que existe mesmo uma bioenergia. E que existem excelentes razões (teóricas) para crer que esse conceito não passa de uma bobagem mal sistematizada e mal fundamentada. Minha solução pessoal neste momento é encarar a bioenergia como uma metáfora útil no trabalho clínico de psicoterapia. Ou seja, apesar de ter muitas dúvidas sobre se existe ou não uma bioenergia, e, existindo, o que seja ela exatamente, sinto que o conceito é bastante útil para entender e descrever muitos procedimentos técnicos, muitas reações somáticas e psíquicas em mim e nos demais, e para me comunicar com colegas e alunos. É obrigatoriamente uma postura provisória, pois acredito que o aprofundamento da questão levará a que a balança penda para um dos lados. Entretanto, o que eu sei atualmente sobre o assunto não me permite jogar fora o conceito de bioenergia, e nem aceitá-lo inteiramente. Creio mesmo que foi este conflito interno que me levou a escrever o presente trabalho, como uma tentativa de começar a resolver esta dúvida.

    O segundo ponto é relativo à pessoa de Wilhelm Reich. O contato com suas teorias nos leva a questionar se esse homem terá sido um dos maiores gênios da humanidade, um louco paranóico, um charlatão, um mártir, ou simplesmente um inovador com algumas contribuições válidas e outras incorretas. Esta dúvida não é puramente intelectual, e atinge a própria identidade profissional de nós que nos denominamos de psicoterapeutas reichianos ou neo-reichianos. Esta questão costuma provocar discussões apaixonadas, e creio que ainda está longe de ser resolvida satisfatoriamente.  De qualquer modo, é interessante notar que mesmo admiradores seus, e continuadores de sua obra, como Boadella (5), Lowen (36) e Pierrakos (46), levantam algumas dúvidas em relação à sua sanidade mental no fim da vida, em especial após o Experimento Oranur.

    Não deixa de ser curioso que um indivíduo tido por tantos como louco, e encarcerado por charlatanismo, tenha ainda, mais de 31 anos após a sua morte, tanta influência na teoria e técnica das psicoterapias, influenciando uma multidão de linhas e gerando descendência intelectual. É intrigante também o fato de que as teorias denunciadas como falsas sejam tão semelhantes a conceitos que insistem em surgir ao longo das diversas épocas e culturas nos grandes sistemas de cura, e ainda hoje persistem em práticas difundidas e aceitas como a homeopatia e a acupuntura.

    De qualquer modo, no mínimo debitam-se a Reich algumas contribuições de enorme importância: 1) a abertura do terreno da integração do corpo à psicoterapia: mesmo que todas as suas concepções se mostrem incorretas, sempre será necessário reverenciar sua coragem intelectual e existencial (enfrentamento de perseguições) de trazer à cena o corpo esquecido e negligenciado;  2) seu papel como um dos pilares teóricos da chamada revolução sexual, onde se dá o mesmo que já comentamos em relação à psicoterapia.

    Além disso, Reich, enquanto criador intelectual, andou por vários campos, e suas concepções mudaram muito ao longo de sua vida. Neste sentido, acredito ser impossível uma aceitação ou rejeição globais de sua obra. Cada aspecto merece ser analisado isoladamente, sem perder sua conexão com o todo. A Orgonomia, a análise do caráter, as teorias sobre a função do orgasmo, a vegetoterapia, as idéias sobre sexualidade e política, são alguns destes campos.


Agradecimentos: Camila S. Gonçalves, Carlos R. Briganti, Frederico A. N. Berardo, Germano B. Rego, Gerson Fujyiama, Gurumayi Chidvilasananda, José Eluf Neto, Leia Cardenuto, Marcos N. Martins, Maria Melo Azevedo, Regina Favre, Sandra Sofiati.    

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2018-05-09T03:13:39+00:00

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